ARAR
Terra, Matéria e Permanência
“Raiz da gente não morre.”
— Inezita Barroso
ARAR nasce do gesto de revolver a terra.
Arar é abrir o solo para que a vida respire novamente. É tocar o que estava compactado, trazer à superfície aquilo que sustenta, mas muitas vezes permanece invisível. O projeto, concebido para a Campinas Decor 2021, transforma essa ação agrícola em princípio arquitetônico.
A matéria é protagonista.
As paredes recebem textura manual, libertas de padrões industriais. O gesto da mão constrói relevos, camadas e profundidade. O imperfeito não é tolerado — é assumido como valor. A estética se ancora na compreensão do wabi-sabi: permanência na impermanência, beleza no tempo, força naquilo que carrega memória.
Pedra, madeira, couro e fibras vegetais são utilizados em sua verdade estrutural. Não há revestimento que simule; há matéria que se apresenta. Cada elemento é escolhido por sua competência sensorial, por sua capacidade de envelhecer com dignidade.
A curadoria articula design brasileiro, peças de memória e criações autorais do estúdio. A poltrona Dinamarquesa de Jorge Zalszupin surge reinterpretada, envolta por tramas orgânicas que evocam raízes — um gesto simbólico que conecta passado e presente.
O espaço se organiza em dois momentos.
No hall, a desaceleração. Piso restaurado, folhagens secas e tons terrosos instauram silêncio. A arquitetura acolhe antes de revelar.
Na transição, a água percorre a superfície de uma mureta orgânica, instaurando movimento e renovação. A luz atravessa tramas manuais e desenha o chão, criando uma relação dinâmica entre sombra e matéria.
Na sala de convívio, a grande abertura preexistente estrutura o projeto. A luz natural não apenas ilumina — ela constrói o espaço. A presença da árvore interna, os tons terrosos e o fogo de chão reforçam o entendimento de que natureza não é cenário, é continuidade.
ARAR não é cenografia.
É processo.
É arquitetura que valoriza o tempo, o gesto e a origem.
Um espaço que convida a permanecer, tocar, sentir e reconhecer suas próprias raízes.

















fotos Ruy Teixeira